sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tirania

Na calamidade do que nos une, acredito tão somente que parto para te ver e sofrer de seguida. Numa promiscua busca de auto-flagelo, determinada pelo prazer incorpóreo.
Não é verdade se disser que a paixão se tece pela faca lapidada de tal injuria. Mas também não é verdade que tenha a quem o dizer. Porque não tenho, ao não o querer fazer.
É um sufoco que é meu, e nem me tentes, porque não o vendo. E ignorares a sua existência não determina qualquer solução.
Procuras soluções sim. Como qualquer ser que reclama e que se despenteia. E pouco me importa ainda se tal filosofia de algibeira, se perde entre nós. Entre o meu peito e as tuas costas dobradas e largas. Pois mais não é, que só isto. Isto.
Nem em nome do veneno, eu me sinto atingida, após de ti. Após de ti, fica a mera estupidez das ignorância e ausência. Como quem sai num dia deserto. Ou se casa num dia que se faz em tempestade colossal.
O assombro de ideais que não nos pertencem. Que não me pertencem. Que ficam a meio caminho, que se estende a parte alguma.
Rogo-te, nesta farsa, um pouco de dignidade. Peço-te as mãos sujas no meu corpo até amanhecer. A tua língua a desenrolar em mim, e a explodir entre as minhas pernas, sem exagero de causa. Clamo-te uma sacudida maior, intimidando o prazer a um mero conceito disperso fora da nossa porta. Nossa por horas. Que nunca, jamais, mintas verdade para me poderes olhar à distância. Sê a ti, sem mo pedires, num qualquer vácuo mental incompreensível.
Ou então, andemos a par e nos olhemos com alegria insolente. Só.
E só.

Desta desfeita, depois do que vier, ignora-me. E fá-lo com calamidade. Aqui, daí, na rua. Com eles. Sem eles também.
Condignamente...
Condignamente.

Fico-me sem me honrar, na espera da próxima. Invariável. A dar-te tudo assim, sem me fazer rogada.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Cobardia

Também a mim, marginal infiel, me bafeja a exaltação social. A afirmação pública, para ninguém, que não espera nem entendimento nem desprezo. E no entanto, ambas.
Talvez seja necessário me fazer entender pelo meu pretensiosismo pela humildade. Para me saber viva não só por mim e para mim. E não sou filantropa.
Não me sinto diferente, na ténue diferença de alguém, que nem à terra nem ao mar, se senta na areia molhada, na espera de ser inundada por uma onda gelada de água salgada.
À terra e ao mar, reafirmo e corrijo. Cada qual com a mesma intensidade, ao mesmo tempo e em separado. Sofreando estímulos. Intensidade do bem e mau estares.
Um equilíbrio pouco nada diplomático. Pouco nada demagógico. Afectado porém.

Não se espera nada, quando do nada que se tem, subtraem-se imensas vontades.
Posta tal derrota, não sei se algum dia terei, então, alguma coisa para partilhar.

É de manhã, e os solilóquios perderam-se nas horas dormentes.

A noite é assim. É mesmo assim. Não eu.
Por isso que gosto dela.

E nem isso importa muito.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Lugar comum

Escrevendo a tristeza ninguém é triste, nem tão pouco mais que a mera tristeza. Queríeis vocês, senhores, serem criativos de longa data, e talvez agora à distância do tempo lhe tenham alcançado o mérito. Queriam vocês, meus caros, serem recriativos, e tal porte vos permite, talvez, uma mesa avantajada num desses jantares de prosperidade.
Ao alcance da sinceridade não está a amizade, tão somente. E o companheirismo implica uma área de reminiscência alargada não só ao íntimo, mas ao colectivo.
Deixar-se parar no caminho, assim, distorce-nos a perspectiva a uma magnitude infeliz mas divinamente convicta. Decoram-se os rostos que se adiantam na nossa fronte, em inverso, e aplica-se-lhes a claridade que lhes é justa por um qualquer momento de virtude, com que brindaram um destes dias ou noites que ficaram por aí com as nossas pegadas.
É tão arrogante nos aproximarmos de Deus, como nos dizermos mais amplos e rectos?
É tão impertinente nos dizermos convictamente parados, como ambiciosamente a caminho?
Estarão eles já de partida?
Acho cedo, e tempo já nada me diz.
E que acho eu? Que posso eu achar se tudo o que acho vai para além do cansaço? Se tudo o que é achar, a nada leva na vida do humano simples?
Achar é o mesmo que estar à margem de nós mesmos, e ao mesmo tempo saber porquê.
De tudo o que vejo, talvez retribua tudo o que tenho, numa selectividade cuidada e dotada de pouco. De muito do que vi aquando ao vosso lado, no princípio.
Ninguém é triste sendo triste. E a beleza só se mantém, a quem não receia ser vil com longevidade.
E somos deveras sujos.

Vemo-nos por aí.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Epictecto, Discursos (c.100 d. C.)

Quando Alexandre, o Grande passou por Corinto, visitou o filósofo Diógenes e encontrou-o sentado à sombra de uma árvore, com as vestes esfarrapadas, sem um tostão furado.
Alexandre, o homem mais poderoso do mundo, perguntou-lhe se podia fazer alguma coisa para o ajudar. "Sim", retrucou o filósofo, "Podias sair da frente. Estás a tapar-me o sol".
Os soldados de Alexandre ficaram horrorizados, esperando uma das célebres explosões de raiva do seu comandante.
Mas Alexandre limitou-se a rir e a observar que, se não fosse Alexandre, sem dúvida que gostaria de ser Diógenes.

Alain de Botton, Status e Ansiedade, página 126


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Título

Devia e teve temor de seguir em frente e penetrar a fundo, não nos seus olhos cor de mel e de alma negra, mas nas suas narinas consumidas por banalidades concretas, infelizes, convencidas, cheias de pó. Impropérios. Falso pó do verdadeiro pó.
A ver o requebro do seu atraente corpo sedado.
Nessa aspereza resumida da falta de cultura precisa, destoada no conhecimento e no medo totais, estes universais, para quê conhecer e procurar o mundo? Sem argumentos para gritar uma memória colectiva, uma fatalidade capazes de abafar qualquer visão real, que se assemelhasse melhor e mais que a própria. E porque não é própria. Próprias são a humanidade e a era.
Não é só medo não...
Olhava-lhe os sapatos. Não era só ele. Não podia ser... E não era por isso que podiam ser iguais, ou equiparados...não. É um fundo de questão que não merecendo resposta, tem três caminhos; O da resolução, o da abstenção, o da não resolução e degredo.
Podia ser só isso. Seria então só isso. Não é procura de verdade ou de resposta. É inércia absorvente. É uma certeza de coisa nenhuma.
Capaz então de gostar? Ou de sofrer por ansiar gostar, ou...? Não. Capaz de querer sentir. E daí poder ou não gostar.
E no meio, e sobre as pedras do chão, desse chão, que descendia a partir da porta por onde dormia até ao varandim... pêlos, pedaços, ânsias sufocadas por nós, desculpados por culparmos a vida da nossa tamanha imbecilidade.
Nem todos podem andar descalços. Nem todos podem gastar sapatos. Nem todos podem proteger os pés. Somos todos e totalmente, linguagem e desejos medíocres da mesma seita.
Iguais. É apenas mais um dia só cheio de coisas. Só cheio de coisas...
Só, e cheio de coisas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Roda da Orquídea

Perdido como que com uma orquídea na mão que nunca será de ninguém. Mas ao invés disso, uma roda velha de bicicleta. Que em tempos que já lá vão rodou tanto quanto a vida de seus avós.
Não se lembra de dormir entre quatro paredes. Não se lembra do Natal, de uma lareira, nem tão pouco de jantar em família. Era sozinho tanto por convicção como que por condição. Temia partir a sua velha e empenada roda de bicicleta. Já enferrujada e sem pneu. Já desprovida de função e mecanismo. Já nem se lembrava a que bicicleta pertencera. Por de certo alguma.
Estava agora ali sentado na sombra de um dos pilares da ponte sobre a via rápida que rasgava o trajecto de ligação entre duas grandes vilas, por terras sem nome e gente. Sentado na metade de um tapete de arraiolos coçado, despeitava a morte em virtude da sobrevivência. Ele estava vivo, em nome do desconhecimento de todos. Em nome do anti-prazer que apenas imaginava das coisas sem pena. Em nome dos sem-nome. Dilacerado por uma série de propósitos assombrosos que não foram dele, e dos quais até já se esquecera.
Se era feliz não sabia, mas como de saber a ser-se triste vai um fácil passo, era integramente um ribeirinho de curtos mas vincados sorrisos.

Orquídeas, a sua roda velha... Orquídeas porque são a elegância com a maior família. Roda, porque uma vez entortado o ciclo, jamais se endireita, sendo tal e qual, exclusivo no universo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

So...



Maioritariamente os aspirantes a escritores escrevem sobre as suas crises existenciais e derivados. No melhor dos casos, uma crise existencial camuflada e fechada num único imaginário paralelo. No pior dos casos sobre as alegóricas crises do simples mortal que passa por e que retrata uma série de etapas problemáticas às quais todo e qualquer cérebro pouco delineado se sujeita.
Maioritariamente os aspirantes a artistas plásticos e/ou criativos quejandos caiem no cliché da falta de cliché. Como se a meta fosse atingir o paradigma da originalidade suprema que em nada consiste, que mais não será que uma nova origem essa pictórica, e em vários casos atingindo mesmo a excelência da arte da birra, que é como quem diz Olhem para mim se faz favor, porque eu subo até ao pico mais alto do planeta Marte e faço a coisa mais nonsense que vocês possam imaginar, ou talvez não possam!!!.
Ao contrário do que se possa considerar, nonsense, é como a arte da comédia teatral; Só depois de seres actor, poderás eventualmente conseguir fazer rir.
Maioritariamente o aspirante a actor terá que ter o mesmo que um aspirante a cantor, ou qualquer outro sujeito da arte de palco. E é pouco provável que eu esteja a falar de um factor qualquer que lhes seja singular, nem tão pouco da escola da expressividade.
Maioritariamente e hoje, a liberdade divide-se em tantas casas prisionais exíguas, que a ditadura se tornou aos poucos, ou aos muitos, uma falta de consciência, pessoal. Um litógrafo social. Uma mentira de ascensão. Salas coloridas e vazias. Salas negras e cheias de espelhos e outro qualquer tipo de lixo auto-centrado.
A própria crítica do que se move e nos rodeia é já auto-centrada num conceito de pequenez de vanglória, ou pelo sucesso ou pela derrota.
A beleza da resposta, da predisposição, da posição, é uma questão plástica. E o cálculo, já não mata com peso e pompa uma exacerbada massa, mas meia dúzia de caprichos temperamentais.
E eu e o que escrevo, ora mais não somos que o remate infrutífero de tudo isto, com uma pitada de ventos ancestrais prejudiciais para a minha sinusite.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Amphi - theater

Confiança. Uma predisposição gerada pela cedência do tempo, da vontade, da culpa. Uma porta aberta. Encostada, para uma sala luminosa e quente. Uma casa mutável. Suporte desmedidamente humano. Insuportavelmente animal.
Apertada no seu vestido preto, que lhe cerceava os contornos profundamente femininos, encontrou-o, a ele, sem descrição, outra vez e por fim, na festa onde toda a burguesia se tinha juntado em nome do circo, completamente alheios à vida palhaça que o fazia viver.

Ao olha-lo enquanto este pousava o copo de espumante sobre o balcão do bar decorado com papelinhos coloridos, o pensamento que o tempo esbateu assomou-lhe com carinho e uma espécie de resguarde cheio de pequenos pedaços de passado até então perdidos.

Porque raio não poderia ela ter confiado num viciado, se só a hipocrisia e a sensatez são impeditivas de tal intrínseca qualidade que é de todos?

Engraçado como
humano, poderia também significar clemente. E como de clemente tudo aquilo que foi, tinha tão pouco.
Ela podia dizer que compreendia agora a dimensão dele. Desmistificar até todo o jogo sujo em volta da crença.

Um fingidor bem-falante. Um fingidor eloquente em silêncio até quando fugia. E ainda assim não cometo o erro, eu, a contadora de estórias que vos conta..., de com o dito e não dito, descreve-lo. A ele.
Mal ousara eu conhece-la, tomara sabe-lo...
Por entre o barulho surdo da multidão embebida em protocolos e plástico nas entranhas, ela ainda desfilou as suas pernas esguias e inocentes que outrora lhe oferecera, inteiras.

Ele não lhe tinha roubado nada. E lamentar perda, era o mesmo que ela se sentir como uma pedinte grudenta e velhaca.

E agora, podia nem saber o que ali fazia, e o que festejava ao certo..., mas saboreava então a certeza do que não queria ser para si mesma.

Como que de novo sem mais nada, já ao lado dele ergueu o seu copo de encontro ao dele e perguntou:
Já alguém te disse que o teu jogo é hostil?
Ele, nunca surpreendido, como sempre o conhecera, segredou-lhe como resposta:
Já alguém antes te disse que os teus lábios são deveras sensuais?
E desrespeitando qualquer hierarquia lógica do diálogo e da moral, perdendo de vista tudo o mais em redor que não ela, acrescentou:
Se não, assumo e lamento verdadeiramente aí a minha grave falha.

domingo, 26 de junho de 2011

Como que gostar...

Percorrida a taberna cheia de massas pessoalizadas à mercê da cidade, movidas a cerveja e atrocidades amorfas. Percorrida a feira fantasma de S. João, nessa tal cidade velha. Percorrida a verdade. Percorrida a consciência acéfala da história de um barco de papel vazio numa grande tela de cinema. Percorrido o azar de estar com sorte numa comodidade absolvida por mentiras com sentido.
Percorrido tudo isso descalça percebi, que ser-se amado mais não é que uma mentira com um sentido, esse, teológico. Como que um deus sobre a terra, assemelhado a um homem arrogante e forte.
Descalça senti então a paixão como a primazia das coisas informalmente belas. Delicadamente perfazes. Incomensuravelmente tecidas até ao final. E todos se podem apaixonar, aquando desalicerçados do peso totalitário da vida.
Mas apaixonados são-no poucos. A paixão é uma natureza indefinidamente selvagem, que a existir saberá o que há de querer.
E eis o paraíso paradoxal de se poder ser-se apaixonado por tudo. Por isto. Por alguém. Por nada. Pelo nada.

domingo, 29 de maio de 2011

Algures.

E outrora a fiel senhora colhia alecrim dos campos selvagens vizinhos.
Não o fazia numa bela tarde de sol, de cabelo solto ao vento, nem de saia rodada, como podereis imaginar... Não usava tranças, nem fita de cetim, nem tão pouco sapatos de fivela.
A sua nudez era de ganga suja e gasta. O seu cabelo emaranhado e mal preso num gancho ferrugento, apenas ousava adquirir vida própria nas pontas ao estímulo da brisa.
Não era branca nem morena. Não era fina nem rosada. Não tinha mãos delicadas e compridas. E a sua sentença preferida era a da negação. Apesar de repelir vertiginosamente a palavra
não.
Era uma contagem devastadora como um desastre natural, a sua história.
Nem tão pouco gostava de poesia. Poesia era uma tentativa esteticamente mal vingada da prosa fácil, pensava.
Gostava de palavras e cartas comuns. As que se mandam a toda a gente porque são claras. E o alecrim que colhia não enfeitava a janela do seu quarto, servia sim para perfumar a retrete.
Sempre senhora, mulher, menina de cidade velha, presa num casebre de madeira pousado numa realidade pastoril.
Não lhe interessava a vida das abelhas como propósito de divagação. Não trazia na boca o travo a laranja, ou nos lábios a cor do morango.
Sofria de uma coragem amorfa por coisa nenhuma. E era assim. Era e seria assim amada por tudo o que de nada de si trouxesse.
Era virgem, e tinha tido mil e um homens.

Era perversa e gostava de lençóis lavados e cama vazia.

Era puta, e rezava todos os dias pelo paraíso ao invés do inferno que toda a alma rebelde pensa desejar.

Vendida por um só beijo, doce por uma noite de suor, impenetrável por um dia de compromisso.
Inimputável frigidez. Fogosa flexibilidade.
Dos sonhos fez anéis. Anéis de corda que jamais tira para lavar roupa ou tocar piano.

Pois que são só isso, argolas imperfeitas que abraçam incestuosamente os seus dedos curtos e mal cuidados.
Como ela é só outra coisa, quando em incerta noite que por aí professaram, se deixar ir nos braços de um homem rude, pedindo-lhe que por favor a ame, sabendo que o amor nessa condição, ser-lhe-à muito inferior e pequeno. Bem do tamanho da pupila dos seus olhos mal pintados, e brilhantemente derrotados.
A fiel senhora era, afinal, o casebre onde dormia.

sábado, 28 de maio de 2011

Narcótico, entorpecente ou estupefaciente...

...Disneylandiano.



Droga da boa, vá!
And what else?!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

.

I am the cynic of our golden age. (...)
Life has no purpose. It is everywhere undone by arbitrariness. I do this and it matters not a jot if I do the opposite. But in the playhouse every action, good or bad, has it's consequences. Drop a handkerchief and it will return to smother you. The theatre is my drug. And my illness is so far advanced that my physic must be of the highest quality.


by Rochester
in The Libertine

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pecado Estatal

Serpenteou pela margem de pedra. A margem do canal de água doce que dividia o Estado em duas metades, uma mais pequena que a outra.
Ao chegar às grades do buraco do esgoto, ondulou ligeira e lentamente o seu longo corpo escamado, e entrou por entre uma das fendas.
Perdera a luz do dia, a humidade e imundice do canal que conduzia ao submundo habitado por demais criaturas da podridão, mas livre da imensidão da falta de causas das gentes que têm como básico domínio o ar puro.
Estava agora desprendida de qualquer julgamento quadrúpede. Bípede. Impune a qualquer prenoção aliada à traição. Coisa que não lhe pertencia como opção consciente e ponderada.
Era altura, ela sabia-o.
Para deixar partir todo e qualquer passado que a acompanhasse sem que esta quisesse ou conhecesse. Continuava ali, no seu percurso único e negro, cilíndrico como ela..., a deslizar pedante e lúbrica, na sua convicção de libertinagem revolucionária e genuína.
E sob o Estado daquele país que ninguém sabe qual, ela procurou o ruído exíguo e modesto dos roedores. O Estado, dividido em duas metades, uma mais pequena que a outra, que se assemelhou àquele quase-encontro de uma só vez, sem oportunidade.
E desta maneira, as suas partes distintas, numa integra mentira de igualdade encontraram-se sem saber.
Era fundo, era negro, era sujo. Era inalcançável imaginarem que tal fosse possível.

E ali... ali mesmo, na cegueira da prenoção da origem de tudo o que é humano, aconteceu.
Algures como que então, num sibilar desonestamente inocente, a serpente perguntou;
- Qual a história deste Estado, dividido em duas partes por um canal de água doce, uma mais pequena que a outra?
- Agora que fugiste, não sei. - Respondeu, o que lhe pareceu ser uma ratazana, que perto dela esgravatava excrementos de Homem.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Laranja (quase) Orgânica

Um travo a casca de laranja; Já irremediável o sabor, o bafo, a sobriedade berrante do aparato e da textura...
Eu, limitei-me a trincar de olhos semi-cerrados, na esperança de coisa nenhuma. E assim pareceu-me melhor. Mais que isso, pareceu-me a realização de um sonho adquirido já por toda a gente.
Sabem do que falo? É insípida a normalidade. Mas é disso que falo.
Fugir e não pertencer, fez com que a pequena caixa do peito tomasse contornos mais fascinantes. São trabalho manual de longa data, e de valor elevado. Já nada se vende.
Em troca talvez tenha vendido a vulnerabilidade imediata da minha alma. Ou da minha estupidez. Não saberei.
E assim fico, de peito elegantemente rendado, feito de duro mogno, à espera do verniz. Um dia, quem sabe...
Sonho-te cidade velha, que cheira a rio cinzento e cor quente descascada. Sinto-te cidade amarela que de tão pouco dás-me quase tudo, numa comodidade abstracta e boémia.
E assim... nua, sobre os lençóis encardidos, agora à espera da chuva como que de outra coisa qualquer, tenho o meu corpo ainda ressentido e curioso... mais ingénuo que eu. Só assim por si mesmo em mim, e não eu nele. Fico... a morder pacientemente a casca da laranja, à espera que esta se transforme em alguma coisa.
Talvez assassínio instintivo. Talvez verdade genuína. Ou ambas a mesma coisa...
Como se começasse tudo de novo..., agora a partir do fim.
O meu fim, para lá das invasões cronológicas neste espaço, em que me deixo ficar.
Deixo-me ficar...

domingo, 3 de abril de 2011

A casa do Incesto - Anais Nin

(...) Estou gelada e a cabeça cai-me através de uma finíssima película de fumo. Em grande angústia procuro novamente Sabina por entre a multidão sem rosto.

Estou doente da persistência de imagens, reflexos e espelhos. Eu sou uma mulher com olhos de gato siamês que por detrás das palavras mais sérias sorri sempre troçando da minha própria intensidade. Sorrio porque presto atenção ao OUTRO e acredito no OUTRO. Sou marioneta movida por dedos inexperientes, desmantelada, deslocada sem harmonia; um braço inerte, outro remexendo-se a meia altura. Rio-me, não quando o riso se adapta ao meu discurso, mas porque ele se implica nas correntes subjacentes do que eu digo.

Quero conhecer o que lá corre em baixo assim pontuado por convulsões amargas. As duas correntes não se encontram. Vejo em mim duas mulheres bizarramente ligadas uma à outra como gémeos de circo. Vejo-as arrancarem-se uma da outra. Consigo mesmo ouvir o rasgão, a ira e o amor, a paixão e o sofrimento. Quando esse acto-deslocação de repente pára – ou quando deixo de ter consciência do som - o silêncio torna-se então ainda mais terrível uma vez que à minha volta não há senão loucura, a loucura das coisas que atraem coisas de dentro de cada um, raízes que se afastam para crescerem separadamente, tensão provocada para atingir a unidade. (...)

segunda-feira, 14 de março de 2011

- Tragam-me o bagaço e o lenço de seda!

Como se incidir sobre do universo masculino, fosse só injusto e preconceituoso.
Injusto, perspectivando os factos universalmente categóricos, muito possivelmente sim. Tão possivelmente, que são o suficiente para justificarem grande parte dos desencontros humanos.
Mas é hipocrisia dizer-se ser só isso. Injusto e preconceituoso. Preconceito não só limita como delimita. Tivéssemos nós muito menos preconceito, e rapidamente seriamos livres do desnecessário. Não o tivéssemos todos em alguma coisa, e rondávamos constantemente a insanidade incoerente.
O facto é que o universo masculino, por tão e tão pouco dependente, dominará sempre os interstícios da vontade e do avanço interno.
Bem há quem seja maior. E indiscutivelmente melhor. Bem há mulheres capazes de ultrapassar toda e qualquer guerra de pistola à cinta e espada em riste, de cabelo ao vento ou rapado, e colocar em sentido e a um canto qualquer homem libertino ou rijo. Bem há mulheres que tentam e fazem o triplo e o imensurável de uma alma solitária.
Mas elas são assim, sempre. Sozinhas.
Umas são fracas demais para o saberem. Outras, atalham caminho, porque negam tal virtude. Outras ainda, atravessam todas as cidades, à procura de pequenas praias com sol, e depois fogem para a origem, outra e outra vez... E ainda há aquelas, que teimam em traçar as avenidas, as praças, os cafés, as praias, e os becos escuros, sempre a longo curso, por entre toda a gente que encontram, ouvindo apenas os seus próprios passos e os ecos das casas.
É uma alusão ao calor. Uma alusão à dependência. Uma alusão ao sistema cúbico, viril e pouco delineado que conseguem e que não é seu. Uma alusão à canção simples e desmedida, também.
Uma alusão ao que têm de mais e maior..., como que uma bela e grandiosa ponte de mármore construída entre cidades cinzentas.
E eis o canal... Eis o rio que passa entre e sob, e que dita o que nele mesmo encerra. Nunca quem dele protege as vidas que atravessam e que passam sobre e para ele.
Dizem que acreditar na igualdade é senso-comum e progresso justo.
Eu, ainda que acérrima de tal verdade , afirmo com mais sinceridade a mentira que esta encerra.
Se é de sociedade que falam, eu cá falo de verdade. Daquela que vos impede de adormecer, quando o silêncio afoga. Daquela que vos impede de acordar de faces rosadas, quando a manhã é chuvosa e gelada. Daquela que vos acobarda perante a facilidade. Que vos avalia a rudez e predispõe.
Daquela que limita a beleza genuína ainda.
Daquela que vai para além da vontade nobre e da elegância corajosa.


Egoísmo; Palavra tão volátil como o açúcar. E na dose certa.
Este é o conceito base ao qual a imensidão feminina se molda. Com mais ou menos mérito. Com mais ou menos do mesmo, travestido.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mais um

De repente, o já amorfo sabor da carne na minha boca seca
Eu, sendo lúcida, mas não clara

Não sendo o peão, nem
o herói
De repente, e outra vez

Coisas aleatórias de coisas

Sabe mal

O cheiro fétido deste agrado pela distância
Distante do que toca

Perto da distancia do que nunca esteve perto

E sabendo que pertenço ao prisma universal

Lamento, mais que o vagabundo que invejo,

Tal singularidade comum

Tal sexualidade vã

Tal compromisso sem cama
Os lábios estalam do que não fui mais capaz de lamentar

Nesta banalidade discutida

Mas sempre sem condenação justa

A elegância e a brutalidade que me assomam

Tornam-me árida como um deserto africano

E lá bem no meio

No exotismo do âmago negro e profundo da minha pélvis

Os meus gemidos e suor

Que, ainda que nunca simulados

Nunca me saciaram a sede

Nem alguma vez deram a beber
E por fim,
(É fácil dizer E por fim...),
Em jeito de trocadilho previsível

Sabe bem

Morrer de sede

E chegar ao fim da viagem
Aquela que ficou por fazer

terça-feira, 8 de março de 2011

S'oro...

Não sei escrever. Tem dias que sei que qualquer coisa só. E geralmente nem são de se referir. Porque são de mim ou para comigo.
Sei; Quando vou ao médico, e ele, ao pegar numa pequena espátula de madeira, pede-me em jeito predefinido; Abra a boca e diga "Áh"!, e eu orientada, escancaro a boca, espondo-a até à uvula sem ponderar, e solto um tosco "ÁaAAaah!".
Sei disso, porque ele vê-me inteira num segundo e noutro faz-me o diagnóstico. Ao levar a receita para casa, ainda ofereço capital pesado, sem que isso me faça ir de bolsos mais leves para casa.
Sei mais ou menos disso, sem que ninguém me contradiga.
Depois, nunca mais volto a ver tal homem de bata branca tão perto de mim, de lâmpada agarrada à testa a apontar-me para o intimo. Nunca mais até outro dia qualquer igual, numa sala de espera enfadada de cheiro a gente e moléstia.
Depois, existem aqueles que com uma chávena de chá quente de limão, trazem-te à cama o placebo (quero acreditar sempre que o seja, fundamentalmente).
É, depois existem esses.
Acreditam-te calada, de boca fechada num sorriso. Meramente pálida. E tratam de ti consoante o estranho que te pediu a primeira letra do abecedário à maior força vocal. Pela bata branca talvez...
Mas tu acreditas que ele-estranho é que sabia. Assim como sabes que o chá faz-te bem e é feito de vontades.
...Patologia grave, a minha.

E quem disse que é da sorte ou do acaso, do valor ou da vontade..., certamente que morreu inteiro. Inteiro de verdades comprometidas. De duvidoso horizonte.
Eu digo só que a culpa é tua.
Sim, tua.
Que me deixaste à chuva sem chave de casa. Que me deixaste mil cigarros numa só caixa à cabeceira. Centenas de garrafas de wisky escondidas no armário. Incontáveis e indomesticáveis insónias. Demasiada comida estragada e água impotável.
E ainda que possa falar do que me levou até ti, e do que antes de ti te trouxe, nada me levaria agora a não dizer que a culpa é tua desta enfermidade explícita.
Que a tua falsa felicidade incapaz, faz assim de mim uma franca infeliz mentirosa.

De mim para comigo, assim mesmo em escrita doente, articulo este défice da base gramatical; É doença, a culpa. E é agora tua.

A culpa é tua.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Máquina de escrever

Preocupa-te com o mundo lá fora que, de quando em vez, aqui, dentro de casa, o mundo é simples.
Simples!
O que te rala a ti, afinal?

Não achas tarde demais para não gostar?

Não achas cedo demais para perderes?

O tempo não acaba quando morres, muito menos alonga quando pensas poder viver.
Pois, então? O que pensas fazer com o que fizeram de ti?

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

"Eu mudo para continuar o mesmo." (disse Sartre)

Era de novo de manhã cedo, e ela já se encontrava em frente ao espelho do bafiento armário da roupa, a exibir, de cuecas relaxadas e soutien um ou dois tamanhos abaixo do recomendável, os seus contornos imperfeitos e sublimemente femininos, sem que tal se lhe assomasse à preocupação.
Girava sobre as pontas dos pés descalços, a olhar com interesse a sua pele branca e pigmentada, que banhava a sua figura com ensejo.
-Maria! Quando desces?! Já te pus as torradas na mesa!
Num ímpeto descomprometido, Maria pegou no relógio de pulso desgastado e castanho que estava sobre a mesinha de cabeceira, e olhou-o rapidamente. Tinha-se distraído de novo com as horas. E como isso era repetidamente aliciante, como a demarcação sonora do frágil ponteiro dos segundos.
Vestiu rapidamente uma camisola de lã alaranjada e desbotada, os jeans habituais, apertou o cinto, pegou na mochila e no casaco axadrezado, e saiu do quarto de rompante.
-Já vai! Estive à procura das minhas botas!
-As botas? Estão aqui em baixo na entrada, Maria!
-Ah, pois... sim, é verdade!
Fingindo-se esclarecida pela primeira vez naquele dia, voltou a entrar devagar e silenciosamente no quarto.
Olhou à volta para as cortinas da janela, colcha e topo do armário, à procura de algo que bem sabia não serem as botas pretas de cordões.
Atirou-se de joelhos para o chão para abrir uma gaveta do armário, e tirou-a para fora. Voltou a despir-se com o mesmo entusiasmo com que se levantou da cama antes, e de novo de cuecas e soutien, deixou-se ficar a olhar para o fundo escuro da gaveta.
-Maria! Então?!
-Er... Dois minutos!
-Vais chegar outra vez atrasada! Despacha-te! Já te penteaste?
-Hum...
De lá de baixo ouviu ainda mais alguns resmungos que se perderam algures nas escadas, e então meteu uma mão dentro da gaveta.
Se de procurar alguma coisa se tratava, Maria disfarçou precisão e foi certeira agarrar qualquer coisa.
O sol já subia no céu à procura das poucas horas que faltavam para o meio-dia.
Na cozinha, ouviu-se alguém descer as escadas, com o passo ligeiro.
-Ah finalmente! Estava a ver que ias ficar no quarto para sempre! Pareces uma menina!
Pedro não a olhou directamente, como que se desculpando, e pegou rapidamente nas torradas já frias em cima da mesa, deixando-as estalarem desleixadamente entre os dentes.
-Bem, vou-me então calçar.- Acrescentou ao sacudir as migalhas da camisola laranja desbotado.
Sentou-se na soleira branca da porta que dava acesso ao pátio, e calçou as botas pretas de cordões. Levantou-se num pulo de mochila às costas, e correu para a paragem de autocarro a alguns metros da casa onde crescera.
Já a correr desajeitadamente olhou por cima do ombro para trás e gritou sorridente;
-Adeus Maria!
, enquanto acenava com a mão que tinha livre, e o autocarro chegava à paragem.
Ao entrar, no meio da mancha de pessoas, ele desejava já ardentemente regressar a casa.
Ao entrar, ela já sentia na cozinha a solidão da casa vazia, à espera da sua chegada ao fim da tarde.

E o sol..., esse, depois do meio-dia, demarcou o seu trajecto descendente, brilhante no seu sistema universal.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Acontece


Acontece, mais vezes do que o recomendável para ser belo, sentar-me e olhar em frente para a rua sem a focar. Como quem olha de perto de mais aquilo que não existe nessa mesma rota demarcada pela calçada, e que se calhar nunca por lá passou. Com uma lucidez quase tão absoluta como a morbidez das coisas simples. Acontece também, encostar-me, a seguir com o olhar o fumo do cigarro de todos os que à minha volta se movem. Como se a minha ilha deserta ansiasse pelo despertar dos vulcões das montanhas vizinhas além mar. Numa expectativa adormecida e privada.
Tudo é cinzento. E cinzento é nostálgico e quente como uma velha fotografia de 1920 de alguém que fez parte da nossa família, e que se apresente demasiado sério.
Os olhos brilham-me com igual distancia de tempo e de esperança a ver, a penetrar aquele nevoeiro de pernas e sapatos e roupas e malas sobre o chão à minha frente, perpendicular a mim. Frente a frente como que numa concordância ocasional e sem intenção alguma. Eu e aquela rua. Eu sozinha, e a rua calcada por tanta gente.
Sentindo-lhe o cheiro da chuva sobre pedra e outras coisas, valorizei-nos o silêncio. Como a maior e mais valorosa conversa que alguma vez poderia vir a ter. Dada a semelhança, não nos voltaríamos a encontrar daquela mesma forma.
O que traz a intensidade vulnerável da minha exaustão, sentada ali, de fronte com aquele passeio alegre, onde a chuva caia... Por onde as pessoas corriam a fugir umas das outras sob a intrujice da normalidade comum... Se o passado está vazio de memórias? Se a ladeira não se pode lembrar de tanta gente, pode em tom de graça, ser regada pela chuva e iluminada pelo sol.
Usam-na porque é útil. É cheia de si. É ao comprimento da sua verdade. E não chora.
Tomara eu não chorar como ela por não ter memórias. Tomara as memórias voltarem a juntar-nos ali, perpendiculares, frente a frente, naquela conversa válida de coisas impróprias mas invisíveis aos olhos de quem ali fumava.
Mas eu chorava. E isso, condenava-me.
E se há quem chore porque as memórias os assombram... Eu naquele dia chorava porque não as tinha.
E a sua ausência, demarcava a certeza de que nunca mais me sentaria ali, a ver aquela rua sem a focar.
Com a melancolia intolerável da sua verdade.
Fosse ela qual fosse.
Levantei-me, e nada mais nos unia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Big Fish


Have you ever heard a joke so many times you've forgotten why it's funny? And then you hear it again and suddenly it's new. You remember why you loved it in the first place.
That was my father's final joke, I guess. A man tells his stories so many times that he becomes the stories. They live on after him. And in that way he becomes immortal.

Will Bloom

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Podia ser bonito. Mas se o é, foi engano.

...Engano o tanas!

Compensara-me agora a literatura, ou outro afazer aleatório que me convença de um qualquer poder incauto de sabedoria original.
Sei lá...
Hoje chove. Muito. E não que isso me encharque o cabelo desalinhado, ou a roupa que, ainda que a mais, me apadrinha. Nem por isso, não... Mas a consciência de que a torrente e a trovoada não se preocupam com as horas ou os dias, coloca-me numa posição pré-defensiva. O que como reflexo, mais não é que não precisar de empurrão para cair na toca dos lobos sedentos. Mas ir lá ter, pelo meu próprio pé.
Num todo anterior a mim, ensinaram-me a andar. Seja para onde for. Fazer o quê? É uma advertência global bastante consentida e fundamentada. Logo, o meu pé é o dos outros. Dos que nem sequer me conhecem e tudo o mais... Afinal somos ou devemos ser todos feitos do mesmo. A treta, é que uma ou outro nervura ou nervo a mais, pode-nos induzir a um erro ascético de nós mesmos perante o resto. E lá vem o individualismo inculpado.
E eu que tenho falado tantas vezes de dinheiro porque tem que ser..., que merda, hiem?
E porque a política arrelia. Ou a religião ofende... Se estás dentro de uma caixa, ou cheiras a cartão, ou morres asfixiado!
E depois são as pessoas que me preocupam. E nem sequer me passa pela cabeça preocupar-me com a sociedade. E até sou apologista do aquecimento global, vejam bem. É. Serei. Porém apoio ecologistas. E tudo o que remeta para o bom investimento moral. Mas é como com todos os empreendimentos desde o início de todas as Eras; Usa e sê usado.
Quem procura manter intacto ou, num repentino ocorrer reaccionário, procura salvar a porcaria, é mentiroso ou ingénuo. E como todos somos um tanto ou quanto de cada uma destas qualidades, podemos sempre ponderar fazer uso também das restantes. Portanto, agradeço que não submetam moralidade a um só género.
Vocês acreditam no equilíbrio? Mesmo a sério? Assim como acreditam nos cromossomas responsáveis pela percepção das cores que globalmente conhecemos? Amarelo, verde, vermelho, azul,...? Sentarem-se quatro pessoas numa mesa quadrada, duas de cada lado?
Eu acredito. Porque enfim, não sou louca ao ponto de me dar ao luxo de não acreditar em nada. Só por isso. Gosto demasiado das coisas simples da vida, para me dar a tais manias de alto custo. E já assim não tenho bolso para pagar nem metade. Daí equilíbrio ser tão real como perfeição.
E de novo dinheiro. Daquele que não se paga. Dinheiro deveria ser pó. Pó, lixo e cotão. Aí sim, estaria tudo salvaguardado. Mas não dá jeito. Porque não foi assim que se decidiu e agora era uma chatice salvar o mundo.
Percebo.
Temo reagir. Se te olhar de frente, vejo-te de perto demais. Se te olhar de esguelha, fica tudo na mesma, e perco ângulos. Se não te olhar, finjo. Ser-se racionalista ao mesmo tempo que se sente toda e cada víscera, diria que é das condições mais difíceis e cruéis de se deslindar. Isto partindo do pressuposto de que condição existe. E de que não é mais uma desculpa. Como aquela que damos quando não nos queremos levantar da cama.
Digo eu, assim como quem nem quer a coisa, que há mais marinheiros que marés, e não o contrário. E que a maioria das coisas está demasiado gasta. Demasiado.
E como eu tive sempre uma tara especial por coisas velhas!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O meu seio contra a arma.


Corria mais rápido que o vento, praia fora. Estava frio, e ela suava. E o frio fazia-a suar mais. Tinha a boca seca. E a garganta era-lhe asfixiada pela saliva. E ela tremia, e não sentia as pernas que já não tocavam a areia. O rumo afunilou-se à sua frente e ela tentou correr ainda mais, para acabar tão somente com aquele pesadelo que lhe martelava como tambores gigantes nos tímpanos, e lhe feria a réstia de sangue que lhe percorria a custo no crânio. E já não conseguia parar. E já não tinha pernas.
O que raio haveria no fim de tudo aquilo?! Daquele gelo cortante. Imagem branca da imensidão tão vazia como o seu peito, que mais não era que grades largas que cobriam um velho barraco cheio de lixo. Cheirava mal, estava podre, mas o seu hálito sabia a maresia da madrugada.

Já voava. Com asas cor de pedra, mais largas que a margem. E ela, entre elas, perdia-se como um pequeno fuso tosco. Uma mancha enegrecida sem qualquer significado.
Só as asas a faziam voar.
Mas que já era ela? E que raio era tudo aquilo? E que raio era o que deixou para trás? E que raio eram eles? E que era ela com eles?!

Não era nada. Não podia ser nada.

Como que quebrando o sufoco num repente brutal, tropeçou e caiu.
E então tudo permaneceu, a girar hipnóticamente à sua volta sem parar. Uma e outra vez. Misturando imagens, fazendo-se uma. E de uma, uma mancha. E da mancha, ela. E dela, apenas uma cor. Uma sombra compacta sem textura nem pigmento. Envolta em coisa nenhuma.
Tinha afinal um pé partido, e as pernas doridas. Agora sim, via o chão. Sentia-o no seu corpo pálido e doente. Agora sim, estava caída de cabeça afundada na areia, como que lamentando a sua glória imunda, de encontro às portas do inferno.
Abriu os olhos. Estava estendida no areal. Com a pele a estalar desidratada pelo sol do meio-dia e das gentes de quem o mar apagou as pegadas.
Quis segredar por socorro.

Mas quando entreabriu os lábios, adormeceu.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

X


Despe a tua cara, careta que contorna tal figura no espaço.
Veste a tua cara, careta que pinta tal espaço, dado que a tua figura é cinzenta.
Senta-te ao lado dessa mulher, e mostra-lhe as tuas mãos a desfolhar o livro que está sobre a mesa.

O que lhe contará não importa, mas desfolha com calma, e alguma fé.

Não em Cristo.
Não na humanidade. Não em ti. Nem na vida.
Mas nas tuas mãos, a desfolhar esse livro, ao lado dessa mulher.

domingo, 30 de janeiro de 2011

(4 e um quarto de faces)

Ser autêntico sem revelar o pior que há em cada coisa. Sem revelar a fuligem de dentro da chaminé da lareira, pintada de fresco e decorada de quadros e outras bugigangas.
Ser assim, sem ser demais nem de menos em cada coisa.

Ele tinha o gesto largo, os olhos doces, as pestanas compridas, o charme da poesia, e a firmeza do desgosto.
Ele tinha melancolia descuidada no passo. Delicadeza no propósito incauto. Alegria no sorriso largo.
Mas como poderia ele ter tudo isso, se passadas todas as casas do jogo da glória, seria a final a da mentira?
Ambos competiam por tal.
Como poderia ele ser astuto, e corar ao cruzar-se com ela..., ela duro algodão?

Se de tanto ver, não encontra o porquê tão pouco mérito.
Então..., deixou de achar valer a pena lançar o dado. E deixou o peão dela sozinho no meio do tabuleiro, depois de recuadas tantas casas sem batota.
Esfarrapou-a em pedaços disformes e exíguos, que se espalharam pelo escuro do quarto. Um armazém vazio apenas com o bafo da transpiração do desconforto e da mágoa solitários.

Estes perderam-se com o restante pó, e fez-se lixo habitante da casa. Como outros aroma e lençol quaisquer.

Maldição.

Quer a casa quer mais uma sensação, afogadas no mesmo rio sem corrente e de canal certo e triste.

Haveria a manhã em que ela acordaria, olharia o castanho da madeira do soalho, e este parecer-lhe-ia imaculadamente limpo.

Afinal, para além dos pés dela, ali não passara mais ninguém.


Ser autêntico..., apenas o sonho.
Como que o limiar do pensamento, ao qual nem Freud deu nome.

E de novo a aurora rompeu silenciosamente a frecha da porta.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Diz que,

Era uma vez uma ilha paradisíaca. E porcos. Era uma vez porcos.
E era uma vez porcos que habitavam essa ilha. Essa ilha paradisíaca.
Que ficava algures em Bahamas.
E eram eles e a ilha. E a ilha com eles.
Era uma vez uma qualquer contradição do ponto de vista humano, real.

Porque ele arrelia-me. O ponto de vista humano, digo.
Aqui, ou do outro lado do mundo.
(Do pequeno mundinho que conheço sem conhecer. - Eis a minha condição.)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Crónica (d)a Insensatez

Um corpo.
Branco, em decomposição.
Um cadáver à mercê da liberdade das gaivotas e dos abutres.
Que ainda vê da morte como um limbo de onde não mais conseguiu fugir.
Fugia de tudo.
Das balas, das gentes, das casas, dos parapeitos das janelas, da chuva e do vento, das horas, da carta ao fado, dos correios, dos bancos das estações de comboios.
Tinha tanto medo de ser feliz, que tal já não lhe soprava ao de leve o cabelo e os ombros delicados e descaídos.
Ele só a lera. Lera provavelmente num obituário de um jornal qualquer que ninguém compra, do interior.
Foi lá que a leu, mal aprendeu a ler.
E foi assim. Foi assim que passou a acreditar em tudo o que ninguém compra. Em tudo o que ninguém ouve. Em tudo o que vai na água da valeta a escorrer ao fim de todos os dias. Quando já todos dormem. Quando já todos metamorfoseiam a corrente das coisas simples. Os chamamentos sãos. Para o resto dos seus dias.
Que serão demasiados para tal rendimento.
Foi assim que mentiu à solidão.
E quando as trevas lhe apertaram o pescoço sem qualquer humanidade presente, aprendeu a fugir, e encontrou por fim a claridade que cegava tanta gente. Finalmente sentiu os olhos a cerrarem-se, a visão turva, a claridade a iluminar-lhe os poros.
Seria ali?
E o sim, veio juntamente com a luz.
Sim, estou vivo.
Sim, vejo.
Sim, quero.
Sim, leio.
Sim, tenho.
Tenho pena.
Ao levantar-se da areia, ergueu o braço direito como quem ergue uma bandeira pirata, e cravou um punhal feito de nada no coração.

Um corpo.
Que ainda viu da morte como um limbo que encontrou, como que para sempre.
Sim, estou morto.