terça-feira, 28 de julho de 2009

Cubo Mágico

Neste cubo, que de mágico tem pouco, tentei trocar as voltas. Ou ainda não..., é cedo..., é sempre cedo. É cedo para comer e tarde para alimentar.
Espreitei distraída por uma das inúmeras janelas estreitas daquele feio condomínio. Serão mais de mil? Diria que sim, após uns bons cinco segundos em que a informação captada pelos meus olhos semi-cerrados, atacados pela clara luz daquela desconfortável manhã, fosse lenta e pesarosamente percepcionada pelo meu cérebro. Seria só eu que não estaria a pensar?
À minha volta, figuras enfiadas em fatos clássicos, pretos, ensacados e suados, mexiam e viajavam de um lado para o outro freneticamente, numa obrigação mecânica. Trocavam-se nos mesmos pontos, percorriam as mesmas linhas pré-estabelecidas todos os dias às oito da manhã, (a contar com os cinco, dez minutos de atraso...), como pinipons sem graça, enfadados e escuros, viajando sobre carris de brincar.
Voltei a olhar para a pequena e suja janela. Estava abafado lá dentro. Por certo que nas janelas iguais, da fachada em frente, igual, estariam criaturas...iguais. O mesmo ar consumido.
Sim, estávamos todos encerrados numa pequena, enorme caixa cinzenta e uniforme, com um falso jardim no meio, no qual quase me pareceu ver um sorriso amarelo de quem diz: Sim, estou aqui, para fazer de conta que este lugar até que é aprazível e até que é...natural?. Oh e é , e é chefe! P'ra semana estarei a passar uns dias de férias com a minha mulher e os meus filhos num aldeamento com jardim e piscina com ondas...(...)", "apanhei" no ar e desliguei de novo. De olhar perpendicular à fachada da frente, daquele velho condomínio, tentei em vão captar cada janela, aleatoriamente, num jogo infantil de quem procura um pinipon colorido a fazer o pino, ou quiçá um outro elegante a dançar o tango de rosa vermelha na boca, sobre uma das compridas mesas de madeira, ou então, porque não, um pipipon palhaço a oferecer flores aos demais... Não quis controlar uma curta e baixa gargalhada que soltei para os meus botões, perante o olhar indagador dos meus colegas pinipons mais próximos. Porém, nem eu tinha visão-lupa, nem algo me surpreendera.
As minhas mãos continuavam a fazer o meu trabalho, sem que eu desse por isso, obedientes, ligeiras, mas com o eterno quebrar de pulso que me acompanha desde os seis anos.
Procurei concentrar-me, e na minha cabeça, uma réplica em miniatura do pesado condomínio, apareceu sem aviso sobre um fundo negro, desdobrando-se. Eu, divertida, rodei as faces que se tornaram coloridas, rodei rodei,...Agora este quadrado verde na face verde do cubo!...esta quase, esta quase...BOLAS! Agora desmontei a face amarela...!!, num contínuo girar de faces planas e geométricas policromáticas. Eu sabia, estava quase, estava quase... e o desenho quase pronto...! E o escritório estava agora vazio. Vá lá ihihihihih!- gritavam duas vozes agudas em coro, por entre risinhos estridentes e felizes.- Agora não vais desistir! ihihihihih!. Senti as bochechas pulsarem rubras, e os olhos a brilhar como estrelas fitando o cubo que se encontrava agora acompanhado lateralmente dos pequenos personagens por mim rascunhados no verso de uma das folhas de papel, que descansavam sobre a secretária de metal. Gritavam em uníssono num apoio faustoso e incondicional, perante a minha grande tarefa.
Tocou o telefone, e uma voz monocórdica e distante disse em palavras mal articuladas : H'ra d'almoço!.
O cubo e os meus amiguinhos irritantemente felizes apagaram-se num pequeno mas sonoro *PLOC!* da nuvem palpável da minha mente.
Ainda é cedo..., murmurei eu baixinho. E o cubo reconstruiu-se através daquela, mais uma das mil janelas; Enorme, uniforme, serôdio e totalmente cinzento. Estava feito, terminado, e eu...oh, eu também nunca fui fã de jogos de paciência!

2 comentários:

Vagabundo Social disse...

Que coisa esquisita. LOL A mente alheia não é fácil de perceber. Minha interpretação: acho que estavas a abordar a azáfama do dia-a-dia, a forma amorfa e autómata como as pessoas se movem nas suas vidas. A cena do cubo interpreto como uma alusão à multiplicidade de estímulos e de problemas que aparecem, e a uma pessoa a tentar desenvencilhar-se bem naquilo que tem de enfrentar, assim como alhear-se de toda a confusão num plano alternativo e mais pessoal. Está próximo? Beijos e abraços.

WillCanora disse...

Uma boa interpretação, daquilo que "procurei" que fosse bastante subtil, subliminar e até,naife.E como sempre, fluido.
Bem-vindo ao cubo mágico ;) lol

Bjinho, obrigada!