segunda-feira, 20 de julho de 2009

Borra do café...

O silêncio..., a vontade..., a falta dela..., a chave..., o dourado velho..., o perfume a flor de laranjeira..., o perfume a usado..., o perfume a cansado..., a mentira..., o perfume a sabonete..., os leves movimentos..., a rua..., a porta do carro mal fechada..., as marcas na pele..., a alma em mim..., a alma em ti..., a alma lá..., a alma ausente..., a noite..., os olhos brilhantes das cores das bijutarias da vitrina grande..., a porta estreita e alta..., as escadas que rangeram para mim..., e talvez para ti..., o candelabro amarelo..., a janela aberta com cortinas de linho..., os movimentos circulares desenhados pelo braço do empregado a limpar o balcão..., os círculos desenhados por ti na minha fé..., a tal rádio mal sintonizada..., aquela música..., e o candelabro amarelo... O puf..., o banco de madeira..., o soalho mal pintado propositadamente..., a troca..., o teu casaco..., a minha bolsa..., a minha mão aflita no meu cabelo..., o teu cabelo aflito na tua mão..., uma chávena branca e ligeiramente gasta..., o paladar..., um relógio..., um pulso livre..., um amolgar de..., mais uma mentira..., mais uma verdade..., mais uma ave..., mais um sorriso..., mais uma passadeira..., mais uma brisa..., o som de semáforos gritando baixinho o vermelho..., um meio tom..., um cachorro sem trela que passa..., vultos..., cores..., rostos..., incertezas..., as palavras usadas ao acaso, por mero contorno..., as palavras mal usadas..., os silêncios acres e doces, e cobardes e fortes..., os lábios que diminuem..., a boca que se entre-abre..., o olhar que se esvazia e se enche..., o som dos tacões da mulher que veste rosa..., o som da bengala do homem que veste cinza... A chávena quase vazia..., o meu afundar numa imagem..., o procurar harmonia..., o procurar entalado da minha garganta..., um corpo estático..., o burburinho..., a multidão que grita..., a multidão que se apaga... E tu..., e eu..., e ela..., e ele..., e eles..., a mesa manca..., e a chávena vazia..., o vento frio..., as certezas..., de novo o teu casaco preto..., de novo os caracóis do teu cabelo..., pela primeira vez o som dos teus sapatos..., longe, longe...,e longe... O cigarro na mão segura da miúda de pele brilhante, que sorri na mesa do lado..., as linhas que os teus dedos desenham no ar..., os desenhos da tua mão...
E antes de saber do acento quente por escassos minutos, que deixaste depois de ti... vejo o fundo da chávena..., e lá estava... Lá estava tudo o que eu não soube, tudo o que não pude, tudo o que não sentiste, todo o carinho..., tudo o que levaste,... tudo o que deixaste...,tudo o que deixei, tudo que não dei... Ali, tudo ali, nada ali..., leve, leve, pouco, tanto, puro, bom, doce, amargo, mau, só... E sem ela..., aquela mesa de café nunca teria sido mais que uma mesa de café... E foi..., e é... e nunca foi sozinha... E no entanto, agora e sempre, é só mais uma mesa de café, encostada à parede, com cadeiras viradas ao contrário encaixadas no seu tampo..., numa madrugada ventosa de verão..., aguardando novo encontro..., novo olá, novo até breve..., novo adeus...
Passei lá esta noite..., não se lembrava de mim. A cadeira pareceu-me tão confortável como outra qualquer, o candelabro amarelo estava de banda..., passava uma qualquer rádio comercial..., senti apenas dois perfumes vulgarmente indistintos..., e eu menti-me, menti-me..., e estive. Estive como se não soubesse que aquela mesa era manca, como se aquela cadeira antes de mim, não estivesse estado quente...
E , sem pensar, presente, como mais uma qualquer pessoa que calça, nem que só para experimentar, os belos sapatos da vitrina mesmo do outro lado da rua..., olhei o fundo manchado da chávena por entre as minhas mãos mornas. E lá estava ela...
Lambi a colher, e parti, leve , a sorrir de camisola de alças, como se nunca antes tivesse circulado com o braço do empregado do café, que limpava de novo o balcão.


5 comentários:

Vagabundo Social disse...

Tá bonito. Não sei bem o que quer dizer, mas vê-se que está empregnado de significado, que é sentido; que diz muito a quem o escreveu.

Anónimo disse...

Na minha opinião esta bem mais que bonito. Esta genuíno,com a batida certa,com a forma cativante e original. É assim,saboroso,gostei muito!
Bjinhos, J.

Luiz Ramos disse...

A alma das coisas, que se confundem com os sentimentos da pessoa que volta a buscar algo do passado.
Mas, passado e futuro existem?
Luiz Ramos

PS. Boa, a música também.

Lala disse...

Muito bonito mesmo! Desculpe a invasão... Cheguei aqui através da "Fábrica de Letras".
Já agora... obrigada pela forma come "desenha" as suas letras...

Blackbird disse...

Luiz,
A alma e o carácter são desprendidos de tempo.
Obrigada pela sua passagem por cá! Muito Bem-vindo! :)

Lala,
Muito obrigada eu pela simpatia emocional do seu comentário.
Os moinhos também são seus, volte sempre que quiser :)