terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quantos queres?!

Naquela tarde solarenta brindaste-me com a tua presença descomprometida. Eu nem te conhecia. E indiferente seria com ou sem ti, sobre terra de barro húmida, junto ao riacho do vale. Sentaste-te a quatro palmos de mim, e procuraste sem pressa assunto.
Ignorando a globalidade de perguntas introdutórias que raramente esperam resposta, teceste um breve comentário sobre um pequeno insecto que boiava na margem, riste-te para amornares o que não sabias, e eu olhei para ti.
Interrompeste-te. Perguntei-te se também era a tua máxima o caminho para a felicidade. Olhaste-me um pouco intrigado, e passados alguns segundos respondeste-me com outra questão:
Quantos queres?
Desta vez olhei-te eu intrigada, sem perceber.
Quantos queres?
Repetiste, tirando do bolso das calças um pequeno origami de papel, com o que me pareceram ser quatro pirâmides, sem base e ocas, articuladas entre si. Encaixaste o indicador e o polegar de cada uma das mãos nas respectivas concavidades do joguinho infantil, e começaste uma pequena dança ritmada e lógica com os dedos.
Ainda intrigada, soltei uma curta gargalhada a olhar para tal recreio, e sem pensar soltei para o ar: Sete!
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete! - Brincaste - Agora de aqui de dentro, escolhe um destes quatro triângulos!
Mas... - Comecei.
Vá, um destes! - Apressaste entusiasmado.
Hum...Este aqui... - Apontei ao acaso.
Cuidadosamente e com destreza, como se ali escondesses a maior profecia de todos os contos de fadas, desdobraste o pequeno triângulo de papel. Estava em branco.
Olhei desta vez para ti com um sorriso misto, de carinho e menosprezo.
Tens um marcador? - Insististe.
Abanei negativamente com a cabeça, e olhei de novo a mansidão do riacho.
Tens sim. - Voltaste a insistir com um tom de certeza na voz.
Impaciente, respondi-te com um baixo e seco não.
Muito bem! - Continuaste inflexível - Desenha e escreve em cada um destes cantos.
Voltei a olhar-te arregalando os olhos, e quando abri a boca preparada para o pequeno ultimato, interrompeste-me:
Guarda-lo sempre contigo, e nunca correste o risco de o perder.
Fitei-te de sobreolho franzido, e tu prosseguiste:
Se quero ser feliz? Não sei.
Passaste-me para as mãos o pequeno brinquedo de papel.
Pergunto-te, eu quero ser feliz? - Dirigiste-me.
Estagnei alguns segundos com o origami desajeitadamente entre mãos, e por fim respondi-te com nova questão:
Quantos queres?

Evitando a globalidade de votos, que poucas vezes rematam o que é verdadeiro, quando a noite engoliu a tarde, já eu me despedira de ti.
Ao voltar para casa, dirigi uma das mãos distraídas ao bolso direito do casaco. E lá encontrei um pequeno joguinho de papel. Papel de apostas, tinta, dança infantil de dedos, o pequeno recreio de bolso. Agora o meu pequeno recreio de bolso.

E esperei sem pressa por uma nova tarde solarenta.

6 comentários:

Samuel Vidinha disse...

O teu blog está para a blogosfera como os Radiohead estão para a música...

Muito bom, mas exigem um certo desprendimento de tudo o que é simples e lógico...

blackbird disse...

Gostei da analogia, e do entendimento on!!:D
Obrigada!!:)
*

astolfo disse...

Mt bom. ao ritmo das boas tardes solarentas.

Keep on going.

*

blackbird disse...

Thanks a lot, estrunfe!:)

daniela gomes disse...

está... lindo. gostava de ter uma tarde solarenta igual à tua, ou pelo menos alguns minutos dela.
**
melra

blackbird disse...

Todos temos. Basta que, sem pressa e perspectivas, leves a mão ao bolso ;)
E acredita que o teu terá grandes surpresas.

Bj grande caracolinhos* :)