domingo, 6 de junho de 2010

Mesmo ali... Ou por aqui...


Foi a vez de fugir do novo, velho quarto à direita do meu L.
É castanho e canta-me melodias de portadas inúteis, que não fecham.
Diz que...
Plim-plim-plim-plim.
.. regateou-me hoje de manhã à luz do Sol de Primavera, carregado.

Regateou-me pechisbeque.
Pérolas da trisavó da vizinha que sonha com uma viagem a Paris.
Utopia de varanda.
No quintal, lá em baixo, vê com orgulho as couves a crescerem fortes e frescas.
Sorri ao pastor das cinco ovelhas. Quatro brancas e uma negra.
E neste gesto vê o sonho da vida tão longe quanto plantado lado a lado com o regador verde de jardim que fazia dançar distraidamente por entre os dedos.
Fazia-se tarde para a hora do almoço.
E do outro lado da rua...
A Senhora da vida estranha e desconhecida, levantara-se num bocejo longo, dirigindo-se por entre as roupas espalhadas pelo chão e pelos móveis, ao largo espelho da cómoda.
Sorriu para o reflexo, e num pretenso rodar de olhos, fixou o óleo da maquilhagem que manchava as gavetas e o lenço de seda da noite anterior.
Coquette, esticou o braço direito o mais alto que pode,num gesto dramático e elegante, como quem em vão pretende tocar o tecto. E embruteceu desleixada, logo de seguida, a figura no espelho, num esgar de boca deletério de satisfação.
Quão sem-vergonha era ela, pensava cadenciadamente a vizinha.
E abanando vigorosamente a cabeça de si para consigo em sinal de reprovação, ainda por detrás da janela, conseguiu desejar-lhe o belo chapéu de tule e veludo, com aquela fina flor vermelho-mogno pregada.
Plim-plim-pe-liiim-pl...
Na varanda, a caixa de música precisava novamente de corda.


2 comentários:

daniela gomes disse...

quarto brancas e uma negra. :) pareces uma fábrica de fazer beleza.
cabra :D

cristina disse...

E viva o cenário da crise...ou da mudança...ou do belo misturado com o bom;)Muito bom.