domingo, 24 de outubro de 2010

Sempre tive tendência para as coisas tristes.

Sempre tive tendência para as coisas tristes.

Aquelas que alegremente me espremem o sobressaltado coração em mácula.

Desde o primeiro medo da soleira da porta da cozinha dos meus pais, ao medo maior do passado sem futuro. E do presente sem passado. E do futuro esse, sem qualquer futuro. Desde as pequenas rezas por pequenas ambições no meu quintal, pelo Jesus dos outros, até à ideia quase ateísta de idealismo sem ambição.

Sempre conheci do complexo dos passos de quem anda na estrada em bandos. Mais até do que de quem anda sozinho. Tenho os sozinhos por excelência, como meus irmãos da culpa. E sobrava-nos tanto e tanta gente só por acharmos ser assim. Quase juntos. A mais não será, mas recusamo-nos a guarda-los cá dentro.

A beleza abençoada por ninguém da sujidade da calçada. O drama da chuva sobre zinco quebrado. Os olhares negros tapados por pele enrugada.

Uma imagem no vidro, em reflexo de imensas vontades mal vingadas..., era sem dúvida a imagem mais bela. Ver quem a olhasse com a subtileza da procura. O vazio da insensatez achada e guardada para sempre no cofre do peito. A inconsciência do consciente precipitado sobre o mundo desconhecido. Esse mesmo vazio do vidro. Esse mesmo confronto com a delicada frieza da aproximação.

As cores do peixe do aquário do bar da esquina. O leque mexicano a enfeitar a velha televisão na casa alugada de alguém que diz vir do sul. O disparo da máquina fotográfica analógica que perpetua, e o arranhar da agulha no disco que gira sobre o armário da sala. Os círculos disciplinados da água do ribeiro esquecido. O silêncio do que existe.

O vermelho..., também ele é triste. Também ele chora sangue com a tenacidade suficiente para se fazer sentir quente. As linhas de comboio à espera da passagem do tempo. Um alfinete. Um pequeno alfinete, que aperta uma ponta de tecido a outra para salvar, aperfeiçoar, ou simplesmente abrilhantar o que já está composto. O verniz transparente nas unhas curtas. A insuficiência que provoca a maldade.

Porque quando passo por entre as sombras que se colam ao chão, sinto-lhes o ego erguido em mim.

A panela que ferve. O chocolate que borbulha. A sopa que escorre. O azulejo que se desgasta a ver tudo do mesmo lugar, quedo. A madeira que range e estala por capricho de charme.

O nenúfar sem chão e a túlipa fechada.

E ainda que o vidro se parta, (que assim seja!) que o vento que venha de lá esfrie o contorno que desenhou, e do que esteve. E nunca traga o engano de um conjunto de dogmas sob capas de artifícios para me cobrir do frio.

Esta é a melancolia atroz. A mais sentida pelo engano da alma. A maior de todas.

A tendência delicada para as coisas tristes.

A perfeição inconstante do que não interessa à razão aprendida.

Ao compasso da maior festa dos sorrisos.

A felicidade plena ao Sol poente.



Imagem em Deviantart

6 comentários:

astolfo disse...

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Joao Ricardo disse...

Nem só com coisas alegres se entristece a tela, nem só com coisas tristes se faz alegra a cena. Acho que, penso eu!!!

blackbird disse...

Tenho a beleza das coisas imaculadamente tristes, como uma das maiores felicidades. Uma garantia sem conforto.
A contar, obviamente, com que existam várias (e não muitas) "variantes" de felicidade.
:)

Joao Ricardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joao Ricardo disse...

"Acanhe-se a alma porque não conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer havê-la – À Perfeição – só a desgraça assiste." Nando Person (acho eu!)

blackbird disse...

"Só quem da vida bebeu todo o vinho, dum trago ou não, mas sendo até o fundo..., sabe (mas sem remédio) o bom caminho!"

Ah oui! ;)