segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pequena Estória

Quando num desses princípios de tarde galgava o caminho do infértil nada espontâneo, que me tem vindo a acompanhar, encontrei um homem com ar queimado pelas viagens em assento de 3ª classe, sentado no chão de pedra de debaixo de umas das arcadas que contornam a praça da cidade, decidi parar e olhar. O velho homem de feições orientais, dispunha de um sujo saco de plástico com vários punhados do que pareciam ser folhas de palmeira ou derivados, tesoura, agrafador, fitas de papel brilhante colorido, uma caixa de pequenos paus de madeira compridos e finos, outra mais pequena de pequenas missangas vermelhas e esféricas, e, um pedaço de esferovite húmido na sua frente, para exposição do que viriam a ser “retalhos” de arte.

Quando nos “acomodamos” ao facto de que vimos uma série alargada de coisas e coisinhas de artesanato turístico, despertamos com estes pequenos nadas de perícia manual e criatividade.

Em poucos minutos, perante o olhar curioso de quem passava, o simpático senhor ondulava despretensiosamente as mãos, construindo com as fitas de folhas, louva deus, cobras e borboletas com pormenores diferentes, fiel às várias sub-espécies.

Comprei-lhe um pequeno louva deus já em exposição e perguntei semi por palavras, semi gestualmente, se poderia tirar algumas fotos ao seu trabalho. Acenou afirmativamente com a cabeça, e começou de imediato a construir o que viria a ser uma borboleta colorida. Após tirar algumas fotos, agradeci, peguei nas minhas coisas e levantei-me. Esticou-me o braço com a borboleta acabada de fazer. AH, é para mim? – Perguntei eu confusa – Sim, sim! – Fez ele um esforço por proferir. Agradeci com um sorriso, e já quando estava a virar costas, o homem disse: Manté isso in água, cómo vida! Ádeu!

Nada será mais especial que as pequenas ambições. Com aquilo que a Terra lhe deu, ele fez a sua pequena arte. Com o pouco que possui, constatou a maior missão do Ser Humano.

O artesanato não quer durar milénios, nem está possuído da pressa de morrer prontamente. Transcorre com os dias, flui connosco, gasta-se pouco a pouco, não busca a morte ou tão pouco a nega, apenas aceita esse destino. Entre o tempo sem tempo do museu, e o tempo acelerado da tecnologia, o artesanato tem o ritmo do tempo humano. É um objecto útil que também é belo; um objecto que dura, mas que um dia, porém se acaba e resigna-se a isto; um objecto que não é único como uma obra de arte e pode ser substituído por outro objecto parecido, mas não idêntico. O artesanato ensina-nos a morrer, e fazendo isto, ensina-nos a viver.”

PAZ, Octavio. "O Uso e a Contemplação". São Paulo: Editora Cultura e Acção, Revista Raiz n. 3, p. 82-89, 2006.


Naquele dia, respirei melhor!

5 comentários:

Daniela Gomes disse...

o que falta para respirares melhor, todos os dias, são aqueles gestos, aquela borboleta colorida sempre. todos os dias. apesar de tudo. abraço grande

Vagabundo Social disse...

Que atiranso descarado, isso de te oferecer a borboleta! LOL Há pessoal que faz arte com tudo. Além de criativos são económicos e versáteis... Beijinhos saudosos. ;)

Samuel Vidinha disse...

Tenho três palavras para ti:

Primeira: Let

Segunda: it

Terceira: be


(:


Parabéns

blackbird disse...

Vagabundo, ahahahah o marooooto!! (gosto tanto desta palavra!!!)
Não, carregava um pequeno (ou não) oceano no olhar, o que o fez subir de posto no meu dia! ;)
eheh
Artistas de esquina...;)
**

Samu,

Mother Mary comes to me!!! :D

eheheh , Bjinho :P

cristina disse...

Fantástica estória...também eu respirei melhor;)é por isso que visito este blog...sei que sempre vou encontrar algo assim...