sábado, 25 de janeiro de 2014

Pai de V

Quando nasceu, tinha em torno de seu torço o cordão
Que da barriga se paria, como a ela e varada.
Largo corte pélvico em função dos três kilos e meio.
Quem é gordo, terá perdão?

Saiba que até foi planizada
Fodida para ser, após precedente móvito
E para com su' irmã pôr um agapanto na orelha
Pela causa afeita da vida de quem mora numa casa
E nos porta-retratos
Quem aparece, será pela centelha?

Sentou-se longe e se masturbou
Ouviu tipos de alardes e de veras abortadas
Sangrou por entre as pernas
Anovelou-se cruciante, de cabeça no colo
E punhos fechados
Quem molesta, sai?

A padecer, sentada, romantizou a genética
E fez dela sua pantalha
Descrição oriunda da fenda do seu aniversário
Quem nasce, casa?

E se(m) casar, morre?

Merece por tudo e de novo, a porta que a deu(?)
Deus sabe o quanto lhe desejei o gosto por existir
E por me fazer partejar
E por me fazer suprimir
Até que ela se feche.

Que há uma ameaça para fora.
Que há uma ácida intrepidez para dentro.

Ela é linda, mas se estupra sempre porque tem vagina
Corte essa beleza fora.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

domingo, 6 de janeiro de 2013

(Onde chegar com demência)

Onde chegar, com doce demência a quem me agarre, sem segurar?
Era lá doce saber-te..., ora infinito de mim, ora imaterial das minhas preces.
Mas eu não as tinha. Eu não tinha preces.
A minha pressa era penosa pela ânsia de que um dia eu pudesse ser, sendo nada, pelo que sou.
Nada.
Não sendo, não cedo.
E o que poderia dar então, se de nada tinha...
E o que poderia então sentir, se de nada servia...
Mas eu sinto. E sei lá, se mais pena de mim, se moléstia por não mudar os que me quisessem.
Para que me quisessem.
Querer o que não há, afinal.
Pelo que o meu egoísmo vive em virtude do que mais anseio. Que nunca, nunca sou eu.
Que nunca, nunca me eleva.
Que nunca. Nunca.
E será verdade que poderei fazer tudo, em desfavor deste nunca que me imponho severamente.
Quero os que não querem ser ajudados.
Provo os que querem ajudar e não me sorvem a vontade.
Trinco os que querem ajudar e me sorvem o que me assombra.
Eu já amei, sem jurar.
E agora... o que fazer?
Se me deixar cambiar para trincar, feliz...
Se me deixar morrer pelo que sempre quis...
E agora.
Onde chegar com doce demência...
É o que peço.
Pois que não tem preço este limbo amante e denso
Entre a felicidade enfadonha, que ergue
E a escuridão infinita, que adora
Ei-lo, o sábio...
Ele sabe que; ou mentir, ou o silêncio.
E a mentira se tantas vezes, é-lo com verdade, sei bem.
E o silêncio, tantas vezes grita que mata antes da morte.
E agora...
Onde chegar?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Dosa

Não sofro de esperança. Do mal o menos.
Pratico a insolvência da compreensão lenta
Lenta e lentamente, de lente somítica latente

Não vivo de bem. Pago o mal
Não vivo de mal. E fio o bem
Pouco se troca, quando se nota

E notar é, a bem dizer
Esquecer que de algo se trata
E não ver, para lá da minha frota

A mal dizer, não puder estar
Onde não me convém
E o que me convém a mim
Não puder assim ser
Porque por tais putas me fadei

E a fidelidade eu lhes dei
Pois que assim!
Esbanjando o engano grosseiro
De que para mim morria descrente, pelo menos
E pelo mal, prisioneiro
Delas
em mim

Delas
Ai delas...

Que nunca sofri de esperança
E que só a mim isso paga respeito
E até herança.

Do menos o mal
Salvé comigo feito.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Andrógeno

No alto da nuca detinha uma aclarada película de pele rugosa e cinzenta. Todo o seu rosto era afocinhado para a fronte, como um animal de espécie intermédia e mal amanhada, de instinto selvático. O nariz era o único e determinado propósito daquela disformidade craniana; Lembrava uma pirâmide e era rechonchudo, sempre húmido, apuradíssimo de faro, capaz de discriminar qualquer minúsculo ser insolente da sua própria existência a desertos de distância. As orelhas de ouvidos afilados, perdiam-se sem registo de presença por entre o pêlo grosso como palha, imundo de restos de negro trôpego.
Era quase por ser assim, que tudo lhe era devolvido pelo invariável respeito ao medo. E ele içava o seu longo pescoço, composto por vários anéis cor de cobre, e erguia-se sobre as pernas tortas e finas como ramos rijos de castanheiro, espetados nuns gigantescos pés, que ainda que desconformes e peludos, eram o único sinal  no seu corpo que o coligava aos humanos.
Na esfera infinita da sua barriga, ele guardava a fome. Fome essa afamada pela fartura.
Para ele, fartura era um pecado. E a sua véstia de predador facilmente o delatava no mundo. A sua fúria por tal injúria era celeste pela falta em negação, de carborante.
Não se lhe fala do peito.
Era o bruto e jamais o cyborg que os putos nas ruas lhe chamavam, pelos seus imensos braços em geringonças metálicas. As extremidade destes, eram afiadas, e cortavam maçãs aos círculos. Não eram mãos. Não tinha dedos.
Desaparecia para não se sabe onde, a fim de dormir. E fugia indefinidamente quando ao fundo, por de trás da igreja, tocava a sirene estridente e gélida da máquina dos sonhos.
Era cego.

domingo, 29 de julho de 2012

Desta; P de Purpurinas

Olhei para a sua perna, e vi brilhos. Daqueles que se compram colados nos enfeites das lojas de decoração e pechisbeques criativos. A sua perna esquerda dobrada, sobre o lençol nos tons da meia luz do quarto, à alusão dos meus olhos entediados por ali vê-la sempre fechada em si num silêncio nebuloso, tinha brilhos sobre a pele. Cristais de plástico metalizado. 
Contei-lhe.
Todos os dias, a via nua de frente ao espelho, a medir as proporções apenas dos seus pés que, dizia ela, se deformavam à medida que o tempo e a vida lhe faziam o íntimo mais feio e imbecil.
E eu, nunca lhe diria que os seus pés eram perfeitos e os mais belos que alguma vez vira. Jamais a obrigaria à minha intenção tão tensa e obtusa de a amar. Ainda que fosse verdade.
Contava-lhe as ilusões do corpo, como histórias para adormecer. E antes de adormecer, sorriamos sem nos lembrarmos de nada. Soltos dos braços um do outro, e de pés cruzados no desajeito da mútua presença tão sublime, ao fundo da cama.
Nunca fomos dos que precisavam de acreditar.



sábado, 21 de julho de 2012

Controração da virtude

E no regresso, da algibeira sacou um pão seco, num gesto redondo e teatral. Devia a esse naco de água e farinha, que morreu ao fim do dia, uma pleonástica intenção de afecto.
Mascou-o com desenvoltura, e um sorriso de boca aberta, enquanto olhava o fundo da passagem de pedra encardida em muros altos.
Ele, ele era filho de Deus. Desse, que o desconhecia à distância da humanidade.
Sabe-se lá.
Pelo centro e ao fundo da passagem escura, o sol já os deixava, desta vez, com a pressa suficiente de uma partida lídima depois de tanto tempo incerto. Talvez fosse ter com O das alturas. O de lá. Deus.
Pois que era provável que Este nem o esperasse, visto não o precisar, a cima.
O Ele, seria Ele de quem? Deus do quê? Se é Deus, é de. E ser de, poderia significar pertencer.
Deus pertence. E ao que pertence, comanda.
É da natureza do universo fazer-se precisar no espaço dessa mesma exacta vontade do seu semelhante.
Mas porque calhou ao universo, ser o maior e mais amplo. O das alturas.
O Deus que alguém escreveu que capitaneou a pregação do querer-bem. Porque do topo da cadeia, tudo o resto se come. Seja o que for.
Porém que venha! Pois a fome é a morte mais conhecida de tudo o que finda à plenitude.
Não há nada que se negue à vontade de se vingar na procura do sustento. Tudo é, porque mais o mantém.
E de amor... Amor. Só da sua algibeira velha, ao enlutar do dia, se podia sentir, duro e morto, o pão que lhe prolongou o caminho negro, a baixo das paredes sujas.
Para onde o maior ia, a pouco lhe sabia para matar a fome. O Pai.
- Oh Pai..., oh que te mantenho e que te sou ingrato, porque me guias na cegueira desse trono!
E neste fim, grato pelo naco, então, sagrado, eu desenho uma larga vénia às migalhas caídas na ladeira.
E Tu estremeces do paraíso aquando me ergo de novo a caminho, sem saberes o que Te perturba.-

E ambos não tardaram a adormecer, sobre-tudo.
Ou Ámen.