sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Dosa

Não sofro de esperança. Do mal o menos.
Pratico a insolvência da compreensão lenta
Lenta e lentamente, de lente somítica latente

Não vivo de bem. Pago o mal
Não vivo de mal. E fio o bem
Pouco se troca, quando se nota

E notar é, a bem dizer
Esquecer que de algo se trata
E não ver, para lá da minha frota

A mal dizer, não puder estar
Onde não me convém
E o que me convém a mim
Não puder assim ser
Porque por tais putas me fadei

E a fidelidade eu lhes dei
Pois que assim!
Esbanjando o engano grosseiro
De que para mim morria descrente, pelo menos
E pelo mal, prisioneiro
Delas
em mim

Delas
Ai delas...

Que nunca sofri de esperança
E que só a mim isso paga respeito
E até herança.

Do menos o mal
Salvé comigo feito.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Andrógeno

No alto da nuca detinha uma aclarada película de pele rugosa e cinzenta. Todo o seu rosto era afocinhado para a fronte, como um animal de espécie intermédia e mal amanhada, de instinto selvático. O nariz era o único e determinado propósito daquela disformidade craniana; Lembrava uma pirâmide e era rechonchudo, sempre húmido, apuradíssimo de faro, capaz de discriminar qualquer minúsculo ser insolente da sua própria existência a desertos de distância. As orelhas de ouvidos afilados, perdiam-se sem registo de presença por entre o pêlo grosso como palha, imundo de restos de negro trôpego.
Era quase por ser assim, que tudo lhe era devolvido pelo invariável respeito ao medo. E ele içava o seu longo pescoço, composto por vários anéis cor de cobre, e erguia-se sobre as pernas tortas e finas como ramos rijos de castanheiro, espetados nuns gigantescos pés, que ainda que desconformes e peludos, eram o único sinal  no seu corpo que o coligava aos humanos.
Na esfera infinita da sua barriga, ele guardava a fome. Fome essa afamada pela fartura.
Para ele, fartura era um pecado. E a sua véstia de predador facilmente o delatava no mundo. A sua fúria por tal injúria era celeste pela falta em negação, de carborante.
Não se lhe fala do peito.
Era o bruto e jamais o cyborg que os putos nas ruas lhe chamavam, pelos seus imensos braços em geringonças metálicas. As extremidade destes, eram afiadas, e cortavam maçãs aos círculos. Não eram mãos. Não tinha dedos.
Desaparecia para não se sabe onde, a fim de dormir. E fugia indefinidamente quando ao fundo, por de trás da igreja, tocava a sirene estridente e gélida da máquina dos sonhos.
Era cego.

domingo, 29 de julho de 2012

Desta; P de Purpurinas

Olhei para a sua perna, e vi brilhos. Daqueles que se compram colados nos enfeites das lojas de decoração e pechisbeques criativos. A sua perna esquerda dobrada, sobre o lençol nos tons da meia luz do quarto, à alusão dos meus olhos entediados por ali vê-la sempre fechada em si num silêncio nebuloso, tinha brilhos sobre a pele. Cristais de plástico metalizado. 
Contei-lhe.
Todos os dias, a via nua de frente ao espelho, a medir as proporções apenas dos seus pés que, dizia ela, se deformavam à medida que o tempo e a vida lhe faziam o íntimo mais feio e imbecil.
E eu, nunca lhe diria que os seus pés eram perfeitos e os mais belos que alguma vez vira. Jamais a obrigaria à minha intenção tão tensa e obtusa de a amar. Ainda que fosse verdade.
Contava-lhe as ilusões do corpo, como histórias para adormecer. E antes de adormecer, sorriamos sem nos lembrarmos de nada. Soltos dos braços um do outro, e de pés cruzados no desajeito da mútua presença tão sublime, ao fundo da cama.
Nunca fomos dos que precisavam de acreditar.



sábado, 21 de julho de 2012

Controração da virtude

E no regresso, da algibeira sacou um pão seco, num gesto redondo e teatral. Devia a esse naco de água e farinha, que morreu ao fim do dia, uma pleonástica intenção de afecto.
Mascou-o com desenvoltura, e um sorriso de boca aberta, enquanto olhava o fundo da passagem de pedra encardida em muros altos.
Ele, ele era filho de Deus. Desse, que o desconhecia à distância da humanidade.
Sabe-se lá.
Pelo centro e ao fundo da passagem escura, o sol já os deixava, desta vez, com a pressa suficiente de uma partida lídima depois de tanto tempo incerto. Talvez fosse ter com O das alturas. O de lá. Deus.
Pois que era provável que Este nem o esperasse, visto não o precisar, a cima.
O Ele, seria Ele de quem? Deus do quê? Se é Deus, é de. E ser de, poderia significar pertencer.
Deus pertence. E ao que pertence, comanda.
É da natureza do universo fazer-se precisar no espaço dessa mesma exacta vontade do seu semelhante.
Mas porque calhou ao universo, ser o maior e mais amplo. O das alturas.
O Deus que alguém escreveu que capitaneou a pregação do querer-bem. Porque do topo da cadeia, tudo o resto se come. Seja o que for.
Porém que venha! Pois a fome é a morte mais conhecida de tudo o que finda à plenitude.
Não há nada que se negue à vontade de se vingar na procura do sustento. Tudo é, porque mais o mantém.
E de amor... Amor. Só da sua algibeira velha, ao enlutar do dia, se podia sentir, duro e morto, o pão que lhe prolongou o caminho negro, a baixo das paredes sujas.
Para onde o maior ia, a pouco lhe sabia para matar a fome. O Pai.
- Oh Pai..., oh que te mantenho e que te sou ingrato, porque me guias na cegueira desse trono!
E neste fim, grato pelo naco, então, sagrado, eu desenho uma larga vénia às migalhas caídas na ladeira.
E Tu estremeces do paraíso aquando me ergo de novo a caminho, sem saberes o que Te perturba.-

E ambos não tardaram a adormecer, sobre-tudo.
Ou Ámen.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eles, comigo.

Eram tantos pelos quais lutavam em desaforo. Tantos quantos os que se encostavam, ao fim da tarde, à grande falésia, a fumar coisas de alto valor de descompensação por parte do mundo. Coisas caras, de acesso odeante, que os traziam à companhia uns dos outros, na solidão enfatuada pela desafectação da vida.
Lutavam em desaforo por tantos. Contavam-se pelos dedos, a cada dia que passava, o que procuravam de cada um, filosofando sobre o amor.
Era o fumo ou o peso. A intoxicação da facilidade. A leveza frágil, que se vendia a tantas oportunidades vazias.
Eles eram demais. Literalmente demais.
Demais no que faziam. No que não queriam. No que ouviam. Para onde iam.
Eram demais.
Eram demasiados para serem bons.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Outra vez

De frente para o sol, todos seremos mais claros.
Uma contra-luz da alma, e um alvejar da tez e dos sinais.
A noite almeja a nossa carne, delineando-a de saborosos enganos, e traz-nos de novo pela manhã.
E aqui estamos nós.
Quem é quem, para dizer que não dormi esta noite.
Que não somos a cara feia que vêem. As rugas, o amarelo e as olheiras.
E quem as trouxe.
Todos falam da solidão com piáculo, e que sabem eles dela na companhia...
Todos renascem da sentença, quando as horas contam o final.
E todos nós. E todos qualquer coisa.
E em todos os tempos, há poemas da noite e de alvorada.
A trivialidade não é melhor por ser poetizada. Mas por ser.